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e-sports - 19/11/2018 às 20:15:43
NEM MÉDICO, NEM ENGENHEIRO: LELIS PAUSOU 'VIDA TRADICIONAL' PARA JOGAR DOTA
Jogador de Belo Horizonte, agora na PainX

Por FLAVIO SALIBA_E-SPORTI
BELO HORIZONTE, MG
Rodrigo Lelis (Foto: Divulgação)
Muitos dos jogadores da “velha guarda” de Dota 2 conheceram o jogo por meio do “mod” de Warcraft III, e a história não foi diferente para Rodrigo “Lelis” Santos, atual capitão da paiN X.

O jogador mineiro - que nasceu nos Estados Unidos e se mudou para o Brasil por volta dos 7 anos de idade - contou ao ESPN Esports Brasil que seu primeiro contato com videogames foi por meio de consoles, como o “tijolão” do Game Boy, mas que se lembra claramente de quando conheceu Dota.

“Eu estava na sétima ou oitava série e um amigo me mostrou Dota. Eu estava na casa dele e ele estava jogando uma partida de Nyx. Eu lembro porque era quando o Nyx tinha umas skills diferentes, e ele disse: ‘Olha que jogo legal. Eu te empresto o disco para você instalar’. Daí eu falei: ‘Então tá’, e foi assim”, recorda.

Lelis afirma que jogou por um tempo no famoso servidor Garena, mas que sua primeira tentativa no competitivo não foi em Dota, e sim em Heroes of Newerth. “Joguei HoN durante uns 3 anos e foi quando eu tive o primeiro time”, diz. “Meu primeiro campeonato presencial foi no HoN, na Brasil Game Show que dava vaga para a DreamHack”.

Na ocasião, a equipe de Danylo “Kingrd” Nascimento, hoje também jogador de Dota 2, faturou a disputa e viajou para a Suécia. Apesar da derrota, Lelis não desistiu do competitivo e continuou jogando por mais um tempo. Foi apenas a “region lock” [trava de região] implementada no HoN que o fez desistir de vez do jogo e ir para o Dota 2.

“Tudo isso eu fiz enquanto estava no Ensino Médio, e então passei no vestibular para Engenharia Mecânica na Federal de Minas Gerais”, lembra. “Na época, eu ainda estava jogando Dota 2, só que chegou um ponto que eu não conseguia jogar bem nem tirar notas boas. Eu estava fazendo os dois mal feito, sabe?”

Foi então que Lelis, assim como Kingrd, decidiu tentar algo diferente e completamente fora do universo do competitivo de Dota 2. Enquanto o recifense prestou concurso público para trabalhar no banco, Lelis ficou um ano longe do jogo para fazer cursinho e prestar Medicina.

“Senti que estava perdido na vida. Não sabia o que tinha que fazer e não tinha nada, só o Ensino Médio. Eu jogava um jogo que meus pais não... não é que eles não me apoiavam, mas que era uma situação estranha, né?”, comenta. “Eu estava numa situação meio estranha, aí eu falei: ‘Vou fazer medicina’, e o que acabou acontecendo? Não passei”.

Ao ver seu futuro como médico frustrado, Lelis decidiu dar mais uma chance para a carreira de jogador profissional. “Como não passei [no vestibular], falei: ‘Ah, ‘véi’. Quer saber? Eu vou jogar um tempo, ver até onde eu chego. Vou jogar uns dois, três anos, e quando passar esse tempo vou dar uma pensada se está valendo a pena, se estou gostando, e se eu estiver gostando, tomo uma decisão do que farei depois”, revela.

A ESCALADA DO COMPETITIVO

Após decidir escalar a montanha do profissionalismo em Dota 2, Lelis foi convidado pelo amigo Lucas Raphael Ferreira “bardo” Barbosa a entrar na equipe da Midas Club ao fim de 2016. O time acabou ficando em terceiro lugar nas qualificatórias sul-americanas para o Major de Kiev (vencida pela SG e-sports) e para o The International 7 (vencida pela Infamous).

Enfim, a equipe conseguiu se classificar para seu primeiro torneio presencial: o The Final Match, realizado no Peru e que também contou com a participação da SG e-sports, que na época passava por turbulências em sua formação. Na competição, a Midas acabou ficando em 7º-8º, mas conseguiu mostrar que seus jogadores tinham talento.

Foi então que, meses depois, a SG e-sports adquiriu parte da escalação da Midas após ver a sua antiga se desmanchar. Na ocasião, Lelis foi contratado com Bardo e Thiago de Oliveira “Thiolicor” Cordeiro para jogar ao lado de Adriano de Paula “4dr” Machado e Guilherme Silva “Costabile” Costábile.


Pela SG, o grupo dominou grande parte das qualificatórias sul-americanas ao fim de 2017, conquistando vagas para e disputando a StarLadder i-League Invitational #3, o ESL One Hamburg 2017, a The Perfect World Masters e a Dota PIT League.

Sobre essa época, Lelis conta que sua primeira reação ao viajar para fora do país e competir no mais alto nível de Dota 2 foi de deslumbre. “Nas primeiras vezes eu estava meio que curtindo a vibe, achando o máximo viajar pra jogar, ficar num hotel super ‘top’, ter uns computadores muito bons pra jogar, as pessoas dando atenção para você, comer em lugares muito bons. Era uma coisa muito nova pra mim e eu estava achando o máximo”, lembra.

“Só que, à medida que o tempo passa, você percebe que todas essas coisas perdem o valor e você passa a dar mais valor para um resultado no campeonato, né?”, complementa. “Você não quer viajar para um campeonato pra ficar em último. Você quer viajar pra um campeonato para ter chances de ganhar. As outras coisas são fúteis em relação a resultado e qualidade do seu time”.

O período de domínio da nova SG, no entanto, foi breve por conta da formação do novo time da paiN Gaming, que era composto por quatro ex-jogadores da SG. Ambas as organizações passaram a lutar pela posição de melhor da América do Sul, e o embate entre as duas era sempre considerado um clássico.

Por fim, a paiN acabou se saindo melhor na disputa e abocanhou grande parte das qualificatórias sul-americanas durante a primeira temporada do Dota Pro Circuit, instituído pela Valve após o The International 7. De todas as competições, a SG conseguiu vaga apenas para a StarLadder i-League Invitational #4, a ESL One Genting 2018, a GESC: Thailand Dota2 e StarLadder ImbaTV Invitational #5.

Em meados de 2017, a nova escalação da SG começou a passar por novos desgastes e perdeu Bardo, Thiolicor e Emilano “c4t” Ito, que atuava como técnico e, por vezes, substituto. A solução encontrada pelo time foi investir em dois norte-americanos - Francis “FrancisLee” Lee e Stanley “Stan King” Yang - que chegaram para ajudar a equipe na disputa mais importante do ano: a qualificatória para o The International 8.

No confronto, a nova formação da SG mostrou força apesar do pouco tempo de treino, mas acabou perdendo para a paiN por 3 a 2 em uma série acirrada. Com isso, chegava ao fim o sonho de ir ao TI8 e, mais uma vez, a estabilidade da escalação.

TCHAU, SG. OLÁ, PAIN.

Na conversa, Lelis confessa que o objetivo inicial da equipe não era se separar mesmo com a derrota nas qualificatórias do TI8. Entretanto, Stan King arranjou um emprego e decidiu fazer uma pausa em sua carreira profissional de Dota 2, e isso acabou desmotivando o resto dos jogadores.

Ao mesmo tempo, o contrato com a SG chegava ao fim, e Lelis assumiu a missão de montar uma nova escalação para continuar seu plano de jogar Dota 2 por mais um tempo. “Aí meio que o time deu disband, por assim dizer, porque não tinha mais uma figura de uma pessoa que unia todos e procurava os players, que era o que o Stan King fazia. Então o que acabou acontecendo é que eu remontei o time com o Flee”, lembra.

Conversa vai, conversa vem com jogadores, ficou decidido que a nova escalação manteria os brasileiros Lelis e 4dr, o norte-americano Flee, e adicionaria os também norte-americanos Ravindu “Ritsu” Kodippili e Quinn “CC&C” Callahan. Com nomes fortes e veteranos no cenário, a formação não teve dificuldades de chamar a atenção de uma organização para defender, e acabou sendo contratada pela paiN Gaming.

Na época, a paiN passava por problemas com sua ‘escalação original’, que até chegou a procurar uma nova casa. No fim, com a necessidade da inscrição de jogadores no registro oficial da Valve para as qualificatórias do primeiro major, a paiN acabou ficando com as duas escalações e nomeou a segunda de “paiN X”.

Segundo Lelis, a decisão de “fechar” com a paiN foi porque a organização fez a melhor oferta. “Como estava muito em cima da hora, a gente precisava de um lugar que fornecesse os computadores e pagasse as passagens para todo mundo vir para o Brasil [e jogar a qualificatória], e a Pain deu a melhor oferta”, revela.

A aposta da paiN deu certo, e ambas as escalações conseguiram garantir vaga para o primeiro major da temporada 2018-2019 do Dota Pro Circuit, o de Kuala Lumpur. O futuro dos times, no entanto, é um tanto quanto incerto, já que a Valve proibiu que uma organização tenha duas equipes disputando o The International 9.

VIRANDO CAPITÃO

Com a saída de Stan King, Lelis passou por outra mudança - desta vez, dentro do jogo. Na nova escalação, o mineiro assumiu o papel de suporte 5 e, por consequência, o de capitão.

Quando perguntamos o que ele acha essencial para um jogador ser capitão, a resposta foi rápida: “Um capitão tem que saber lidar bem com as pessoas, tem que saber entender porque elas falam as coisas que falam, porque muitas vezes elas têm problemas de lidar umas com as outras. Se você é capitão, a sua função é de aliviar esse estresse”.

Lelis acredita que um capitão precisa ser organizado para coordenar seus companheiros da maneira correta, assim como lidar com situações de fora do jogo para melhorar a vida do time - principalmente quando a equipe não faz parte de uma organização que possui uma comissão técnica com gerentes e afins.

Por isso, para ele, a decisão do suporte 5 ser um capitão é a mais sábia. “É melhor ser eu do que um cara que joga de ‘core’ e que tem que me carregar, né? Se ele estiver jogando mal e eu estiver jogando bem, eu não vou carregá-lo, mas se eu ficar 0/10 [abates/eliminações], ele me carrega, e pelo menos eu fiz as outras coisas que eu precisava fazer para o time estar jogando, é isso que muita gente não vê”, explica.

PENSANDO NO FUTURO

Um dos assuntos tocados na conversa foi o futuro do competitivo do Dota 2, além do futuro do próprio jogador. A opinião de Lelis sobre o cenário do jogo é parecida com a de outros jogadores profissionais: a Valve está indo pelo caminho certo com o DPC, mas é necessário mais que isso.

Segundo o mineiro, um dos grandes problemas de uma organização de Dota 2 hoje em dia é se manter. A maioria das organizações grandes são financiadas por pessoas que têm dinheiro e, por isso, conseguem crescer, mas o mesmo não pode ser dito de organizações menores.

Lelis acredita que uma possível solução para isso seria o investimento na base do jogo, “que agora é muito várzea”. “Os novos jogadores não ganham nada, se você parar para pensar. Se você quer ser o melhor jogador do mundo, você precisa jogar o dia inteiro, mas daí não tem um retorno garantido. É complicado”, alerta.

“Então, eu acho que a Valve poderia fazer algo como dar premiação para qualificatórias, alguma coisa assim”, sugere Lelis. “Não sei o que é que eles podem fazer, mas eles ganharam o quê? Uns 70 milhões com o TI? É tanto dinheiro que eu penso que não é possível que eles não podem fazer algo para fomentar os jogadores novos, um cenário novo”.

Já para o próprio futuro, o mineiro reitera que pretende jogar pelo menos mais um dois anos para só então fazer uma “reavaliação”. “Vou sentar, pensar, avaliar a questão monetária, ver se estou gostando do que estou fazendo, e ver se está valendo a pena. Se estiver, eu pretendo continuar né, por que não? Mas se não tiver e eu achar que não quero mais continuar jogando, ainda pretendo fazer um curso superior”, revela.

Enquanto essa hora não chega, Lelis e a escalação da paiN X têm a missão de conseguir participar do maior número de minors ou majors possíveis nesta temporada do DPC - começando pelo Major de Kuala Lumpur, nesta quinta-feira (8), que será transmitido nos canais da ESPN.

FONTE: espn.com.br

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